quarta-feira, 5 de maio de 2010

Assembléia gigante dos educadores decide: a greve continua!

Vejam também esta boa reportagem da TV Alterosa (clique aqui).

Foi uma tarde maravilhosa. A agitação começou um pouco depois do almoço, quando pegamos o ônibus especial do Sind-UTE que saiu da Igreja Matriz de Vespasiano, passou por São José, depois pelo Morro Alto, atravessou a Cidade Administrativa - onde nós, educadores, deixamos involuntariamente parte enorme do nosso salário -, até chegar à Assembléia Legislativa de BH.

A partir das 14h o pátio da ALMG começa a encher. Chega gente de todo lado, de todas as cores e tons musicais. Minas é grande demais, mais de 800 cidades, e dificilmente o serviço de som da mesa da assembléia dos educadores consegue anunciar o nome de todas as cidades que se fizeram representar. Quando bateu 15h, estava no meio do pátio, cercado pelo combativo grupo de educadores de Vespasiano, São José, Lagoa Santa e Pedro Leopoldo. Um pessoal de verde abacate, que lembra um pouco o verde da esperança. Eu e João Martinho bem que desejamos que a camisa do uniforme fosse vermelha e preta, cor de luta. Mas, o toque feminino prevaleceu.

Olhei para todos os lados e constatei: já são mais de 10 mil pessoas, seguramente. Se o governo de Minas pensou que a combinação de bombardeio na mídia, o choro sem vela e sem graça da entidade que diz representar os pais de alunos somente durante as greves, a decisão do desembargador maroto que descobriu que a Educação é área essencial, tudo junto, fosse intimidar os educadores, enganou-se.

Os trabalhadores da Educação não paravam de chegar, de toda parte, de todas as cidades, empunhando bandeiras e apitos, bradando o grito de guerra contra a insensibilidade de um governo que tem coragem de pagar um piso menor que um salário mínimo. É o governo de Minas, cuja arrecadação cresceu 130% nos últimos sete anos, que construi obras faraônicas, mas que diz não ter dinheiro para pagar o piso de R$ 1.312,00 que é lei, tanto quanto a lei de responsabilidade fiscal, ou a lei greve, que eles rasgaram. A lei, por estas terras, se aplica de acordo com as conveniências.

Mas, os educadores deixaram claro que não estão (não estamos) dispostos a recuar. Depois de dar os informes, e abrir a palavra para os oradores inscritos, a coordenadora do Sind-UTE colocou em votação a continuidade ou não da greve. Dos 15 mil educadores presentes - era este o número aproximado, pelos meus cálculos, embora houvesse quem, ao meu lado, falasse em 20 ou até em 30 mil presentes - que votaram levantando as mãos, desta vez não houve unanimidade. Um único educador, corajoso, foi a favor do fim da greve. Os demais 14 mil 999 votaram pela continuidade da greve, exibindo grande disposição de luta.

Após o ato, que como sempre teve o seu momento cultural com apresentações artísticas, os trabalhadores seguiram em passeata para o Centro de BH. Uma passeata gigantesca, que atravessou mais de um quilômetro de asfalto, com milhares de pessoas carregando as bandeirinhas do Sind-UTE, cantando músicas e palavras de ordem, num contato direto com a população de BH. É grande o apoio da comunidade à greve, é o que se percebe nesse contato através do olhar e do sorriso e dos gestos de aprovação. Aécio e Anastasia não têm idéia do que eles vão perdendo de capital político cada vez que atravessamos o Centro de BH.

Desta vez fomos parar em frente ao Palácio da Justiça, de onde sentenças estranhas têm sido formuladas. Há desembargadores que não são propriamente guardiães da Carta Maior do país, mas verdadeiros legisladores: eles não interpretam, mas criam leis de acordo com a conveniência e o gosto dos interesses políticos e empresariais.

Nós, trabalhadores, já estamos acostumados com essas práticas. Por isso sabemos valorizar quando algum juiz ou desembargador ou ministro do STF formula sentenças que correspondem de fato ao espírito da lei e dos oprimidos.

Mas, tínhamos razão de protestar em frente à Justiça, pois um desembargador acabara de determinar que a nossa greve era ilegal, pois nosso serviço, segundo ele, é essencial, e sem ele, de acordo com os serviços inadiáveis constantes da Lei 7.783, os alunos correm o risco de sobrevivência, de saúde, ou de fome. Acho que ele só errou a vítima: quem corre estes riscos somos nós, com o salário que recebemos e as condições de trabalho com as quais convivemos.

Educação poderia de fato ser elencada como a mais essencial coisa na vida de um cidadão. Mas, tanto para o legislador, quanto para os governantes do Brasil e de Minas, educação pública é só uma forma de causar gastos inúteis. E ficam esses chatos dos educadores querendo ganhar mais que um salário mínimo. Eta povo aborrecido, gente!

Pois é assim que pensa a nossa elite a nosso respeito. Não vou negar que a recíproca seja verdadeira da nossa parte em relação a esta elite cínica, inútil e canalha. Na porta do que deveria ser o local da Justiça fizemos o nosso protesto pacificamente e encerramos o ato.

Sabemos que não podemos contar com a grande mídia, pois ela foi amordaçada pelo tilintar das moedas que enchem os cofres de alguns poucos que se dizem formadores de opinião, mas que são incapazes de um compromisso ético com a verdade, ou com as verdades, dos muitos lados que se apresentam em disputa. Vez ou outra conseguimos espaços valorosos de alguns profissionais que quebram a regra da mordaça comprada a peso de ouro pelo governo mineiro, mantendo-se fiéis aos compromissos de bem informar.

Com a Justiça já vimos que podemos contar às vezes, apenas. E dos políticos profissionais, não contamos quase nunca. Por isso, a importância da pressão popular, de cada ato coletivo ou isolado que os educadores têm realizado ao longo dos últimos 27 dias de greve. Com muita coragem, determinação, lutando contra a corrente, furando o cerco do inimigo, improvisando às vezes, abrindo espaços onde parecia impossível, convecendo companheiros a não voltarem ao trabalho, a não desistirem agora.

Uma luta que está fazendo história de forma maiúscula, quando a vontade comum de muita gente vai ganhando força, conquistando corações e mentes, atravessando fronteiras e se tornando referência para as próximas lutas e gerações. A greve deste momento tem todo este peso: o de garantir conquistas salariais imediatas, para que não morremos de fome, e o de criar ou recuperar uma referência moral que havia sido apagada nos últimos anos.

Ninguém poderá dizer que os educadores de Minas desaprenderam a lutar, que não foram capazes de se recuperar de derrotas passadas, ou que foram domados pelas políticas neoliberais de Aécio e Anastasia. Nosso movimento é um tapa na cara dessa mentira. É a prova de que estamos vivos, e de que a luta continua, forte, firme, até a nossa vitória!

Links associados:
- TV Alterosa
- Jornal Hoje em Dia
- Portal Uai

Em tempo: A próxima assembléia estadual será no dia 11, terça-feira, às 14h, no mesmo local (ALMG). Seguramente, mais um ato gigante nos aguarda! E aqui em Vespasiano, haverá ato com passeata na próxima segunda-feira, dia 10, às 14h, na Praça JK. Participem e convidem os pais e alunos e vizinhos e amigos.

P.S. Recebi vários e-mails, cartas, textos muito interessantes que pretendo publicar aos poucos no blog. Enquanto isso, quem quiser postar mensagens imediatas é só escrever diretamente nos comentários logo abaixo dos textos, que publicaremos sem qualquer alteração (claro, desde que não sejam as baixarias usadas pelos inimigos dos educadores).

P.S.2 - Quem puder envie e-mail parabenizando a TV Alterosa pela reportagem feita pelo Jornal da Alterosa que indicamos acima. E-mail: ja@alterosa.com.br

11 comentários:

  1. Euler, dessa vez não pude ir, mas ler seus comentários me fazem muito bem. Estive em Bh dia 29 e comentei com alguém aí de Vespasiano que queria conhecê-lo e agradecer pelas inúmeras vêzes que tirei do seu blog, informações que foram como munição para os professores daqui de Mutum. Obrigada de coração. Com tanta mordaça, precisamos dos nossos fieis informantes. Em nossa cidade temos 14 escolas e somente uma trabalaha com 5 funcionários, ou seja, quase 100% de adesão. Temos feito passeatas, encontros, falas no rádio e passamos e mails o tempo todo para Minas Gerais toda, políticos, tv, rádios. Estamos cansados, mas perseguindo.
    Escrevi o que vai a seguir no ínicio da greve, se achar conveniente publique.Seja livre para fazê-lo. Um abraço forte, Sílvia.
    GREVE DOS PROFESSORES EM MINAS GERAIS
    Há bastante tempo, tenho comparado a situação do professor de Minas Gerais aos trabalhadores hebreus no Egito. Sob forte escravidão os hebreus clamavam a Deus por libertação. Faraó exigia um resultado dando barro e palha. E o resultado tinha que ser além daquilo que os trabalhadores suportavam.
    Deus vendo o a angústia do povo, manda Moisés e este tenta fazer negociação com Faraó. O grande ditador supondo que os trabalhadores estavam muito ociosos, uma vez que tinham tempo de reivindicar, tirou a palha com que faziam os tijolos e exigia a mesma produção. Mais uma vez Deus interveio e através de Moisés começaram as negociações. O povo por sua vez, diz em Ex: 6: 9, não conseguia entender a proposta de Moisés “por causa da ânsia de espírito e da dura escravidão”. Mesmo assim, Moisés não parou. Faraó endurecia cada vez mais, mas chegou uma hora que eles conseguiram sair do domínio do escravocrata. Pensam que o ditador cedeu? Claro que não. Foi à beira do Mar Vermelho que o povo de novo ficou com medo e Deus deu uma ordem a Moisés: “Diga ao povo que marche”.
    Companheiros e companheiras, tenho orado há muito tempo para que este dia chegasse. Temos sido exigidos além de nossas forças. A cada dia tiram de nós as condições de trabalho e sufocam-nos com pedidos de resultados incompatíveis com o que cremos e que podemos fazer. Além de muitas vezes não sabermos para onde o sistema educacional está indo. Isso não é educação de qualidade.
    Temos um sindicato que tem tentado fazer as negociações. Os magos de Faraó com seus shows pirotécnicos aparecem na mídia. Nós por sua vez parecemos sem rosto na imprensa. Não importa, é hora de marchar. E a marcha é a greve. Só assim nosso mar vai se abrir. Talvez, professor, você que durante muito tempo esteve debaixo dessa dura escravidão e dessa ansiedade não esteja crendo, mas essa é a nossa hora. Precisamos não murmurar e sim lutar. Precisamos nos organizar e encorajarmos uns aos outros.
    A música abaixo foi feita por uma professora de minha escola, aqui no interior de Minas, e é uma paródia da música “Sorte Grande”(Poeira),da Ivete Sangalo .Que tal cantá-la em seus encontros e com isso encher o coração dos nossos colegas de esperança.
    Ai vai:
    Refrão: Já chega, já chega, já chega.

    Educação não é brincadeira.
    Não dá mais pra agüentar
    O governo falar
    Que a educação de Minas é modelo
    Modelo não é não
    Com tanta opressão
    A educação vive um pesadelo

    Exige mais trabalho
    Diminui o salário
    O velho faraó voltou
    Buscamos esperança,
    Respeito e segurança,
    Salário justo para o professor.
    Com um forte abraço,
    Sílvia .
    Professora de Inglês e Português
    ( Mutum- Minas Gerais)

    EM GREVE

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  2. Ei Euler, visite e siga o blog da Educadora Nícia.
    Vamos juntar as forças.

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  3. Como você consegue????

    Estou mortinha!!!!

    Estou até agora tentando postar algumas fotos!

    Boa noite

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  4. Euler, conheci seu blog dia 04 de maio, à tarde, quando a Stenia da subsede Barreiro me pediu para formatar um panfleto para a assembleia. No conteúdo havia uma matéria sua, então acessei e me surpreendi com o cunho filosófico e político da nossa luta.
    Antes de fechar a formatação, veio a notícia amarga da decisão do desembargador. Então, o foco que seria atingir o fura-greve mudou. Tinha de mudar a primeira página para dar uma resposta ao maroto. Mas já estava sem forças para escrever algo.
    Aí, lembrei do seu blog e sem pedir permissão editei sua resposta tão coerente.
    Me desculpe usar sua matéria sem sua permissão, mas acredito que, como estamos do mesmo lado e com os mesmos objetivos, você não deva se importar.
    Concluindo: não sei se você recebeu o panfleto da subsede do Barreiro, mas coloquei o crédito do seu blog.
    Qualquer coisa, pode entrar em contato comigo.
    E A LUTA CONTINUA!!!

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  5. Ah. me esqueci de colocar o link do panfleto pra você:

    http://rodriguescampos.org/arquivos/infobarreiro_05-05-2010.pdf

    e o site da escola em que trabalho, estou fazendo um diário de greve, bem resumido:

    http://rodriguescampos.org/greve.php

    Abraços. Paulo L. Andrade.

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  6. Caro colega Paulo,

    Fique à vontade para reproduzir qualquer texto deste blog. Como vc disse, estamos juntos na mesma luta.

    Um forte abraço,

    Euler

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  7. Cristina, as fotos do seu blog ficaram muito legais. São imagens que falam por si, e mostram a disposição de luta dos nossos bravos colegas educadores.

    Um abraço,

    Euler

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  8. Silvia Machado, obrigado pelas visitas ao blog e parabéns pelo belíssimo trabalho que vocês estão fazendo em Mutum. Recebi seu recado no dia que vc me procurou, durante a passeata. É muito importante formar esta rede bonita, informal, entre o virtual e o real, quebrando a mordaça da mídia e criando formas diretas e horizontais de comunicação.

    Um forte abraço, companheira.

    Euler

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  9. Euler o pessoal da E.E. Pandiá Calogerás em belo horizonte está querendo furar a greve precisamos urgente !! de um apoio do sindicato lá na escola amanhã !!! pela manhã !!!!

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  10. prof. Erivelton G. Ramos (Poço Fundo-MG)6 de maio de 2010 15:04

    Olá Companheiro Euler!!!
    Tb fiz um blog pra acompanhar o movimento grevista aqui em minha cidade e confesso que muitas das notícias postadas nele são copiadas de seu blog! hehehe
    Já que na mídia oficial pouco se encontra sobre a greve ou então surgem as notícias "retorcidas".
    Parabenizo vc pelo blog e que Deus lhe ilumine sempre e te de força de sempre ter energias pra continuar lutando e nos informando melhor que muitos da "grande mídia"!
    Um grande abraço!
    prof. Erivelton (Poço Fundo-MG)

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  11. Olá companheiro Erivelton!

    Força aí na luta e obrigado pela visita!

    Um abraço,

    Euler

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