terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Uma outra mídia é possível... em Minas, e no Brasil


Uma outra mídia é possível... em Minas, e no Brasil

Terminadas as eleições, com a derrota acachapante de tucanos e linhas auxiliares – tipo Marina Silva e pastores de direita – é hora de recolocar uma questão central para a democracia brasileira: a construção de outra mídia.

Desde que a ditadura
civil-militar foi parcial e formalmente derrubada no Brasil em 1985, a democracia implantada vem sendo constantemente ameaçada. Uma das principais causas dessa ameça que paira sobre a nossa frágil democracia é o monopólio da mídia nas mãos de poucos grupos ou famílias comprometidas com o golpismo, com o neoliberalismo, com o imperialismo norte-americano e com tudo de ruim, em desfavor da grande maioria do nosso povo.

Não tenho o menor receio em dizer que o Brasil dos de baixo só não está melhor em função do bombardeio ideológico que a chamada grande imprensa submete o povo brasileiro. Basta ler as manchetes dos jornais e revistas, ou ouvir algum comentarista da Globo, da Band, da Itatiaia, do SBT, entre outros. Todos eles, com raríssimas exceções, estão ideologicamente ligados aos interesses das elites dominantes. Todos eles despejam diariamente notícias negativas sobre o Brasil e escondem os avanços, muitos deles importantes, como a redução da miséria, a retirada do Brasil do mapa da fome, entre outras.

Uma imprensa com este grau de concentração nas mãos de um grupo que é anti-povo não pode resultar em coisa boa. São milhares de notícias negativas sobre o Brasil, sobre os programas sociais, sobre as lutas sociais, sobre os movimentos sociais, todos eles criminalizados como se fossem bandidos. Até as questões essenciais, como a divisão do orçamento público dos governos, deixam de ser discutidas. Quanto se gasta com as políticas sociais e quanto se gasta com juros de pagamentos de dívidas públicas? Seria importante que a sociedade discutisse este tema, entre outros.

O governo federal, sob a liderança do PT, ainda que em aliança governamental com setores da direita fisiológica, tem sido vítima diária deste bombardeio da mídia golpista. Não se trata aqui de uma informação irresponsável da minha parte, não. Um minucioso estudo feito por pesquisadores da UERJ, que ficou conhecido como “Manchetômetro” (veja o link aqui), revelou, durante a campanha eleitoral, o altíssimo percentual de notícias e manchetes negativas contra o governo Dilma e contra o PT, enquanto os partidos e governos de oposição e seus candidatos eram poupados.

Claro que não precisaria de nenhum estudo científico para chegar ao mesmo resultado do Manchetômetro. Basta ouvir a Rádio Itatiaia, ou a Band News, ou a Rede Globo em quaisquer dos seus veículos (e são muitos) e será possível perceber a carga de ódio ideológico dos comentaristas contra o PT, contra a presidenta Dilma, contra Lula, contra os movimentos sociais, contra o povo brasileiro, enfim.

As raízes deste posicionamento ideológico de direita e neoliberal da mídia brasileira podem ser encontradas lá no golpe civil-militar de 1964. Praticamente toda a grande mídia – à exceção, na época, da TV Excelsior e do jornal Última Hora –, apoiou o golpe de 1964. A Rede Globo, por exemplo, se tornou o império que é atualmente graças ao golpe de 1964, ao qual apoiou, do qual se beneficiou e ao qual sobreviveu. A Folha de SP, da mesma forma, não só apoiou na linha editorial, como emprestou seus automóveis para a ação dos bandos de terroristas de estado travestidos de órgãos da repressão policial.

Mas, além deste vínculo
ideológico com a direita golpista, que durante 20 anos perseguiu, prendeu, torturou, exilou e executou centenas de cidadãos que se opuseram ao golpe e a seus desdobramentos, os  coronéis da mídia defendem também os seus interesses de classe, ligados aos de cima. Os donos da mídia do Brasil são grandes empresários, ricaços, que não têm qualquer compromisso com a história do povo brasileiro. Estão preocupados é com o faturamento de suas empresas de comunicação, como qualquer outro negócio, e sabem que este faturamento é sempre mais generoso quando se relacionam com governantes de direita e neoliberais. Não que os governos como os do PT também não sejam generosos com a mídia. Pelo contrário: Lula e Dilma nunca cortaram a bilionária bolsa-mídia que enche os cofres dos grandes meios de comunicação. O que aliás é uma grande falha, ou covardia, dos governos do PT.

Mas, os donos da mídia não se contentam com a generosidade publicitária dos governos do PT. Eles querem mais. Para eles, é um absurdo que se invista alguns bilhões de reais com bolsa família para os pobres, e com outros programas sociais. Este dinheiro, na visão da direita golpista brasileira, deveria ser usado para os projetos dos ricos, dos banqueiros, dos empreiteiros, entre outros.

Além disso, os donos da mídia – e os jornalistas que aparecem com destaque comungam com suas ideias, do contrário não seriam contratados por eles – são ligados aos interesses do capital mundial. Não é à toa que defendem a privatização de tudo, que são contrários à reserva de mercado para a frágil indústria local, que são a favor de uma política externa aliada aos EUA e aos países ricos da Europa. É uma mídia colonialista, que não saiu ainda do Brasil colônia, quando éramos apenas fornecedores de riquezas para os países ricos.

Quando o PT, com todos os seus equívocos e covardias e fraquezas, ainda assim desenvolveu uma política interna de fortalecimento do mercado nacional, com aumentos reais de salários e maiores investimentos em programas sociais, a mídia brasileira não o perdoou. No manual neoliberal, política de estado boa é aquela que combina choque de gestão, ajuste fiscal, superavit primário,  e controle da inflação baseado no arrocho salarial e no desemprego em massa. Foi este o receituário defendido por Aécio Neves com 100% de apoio da grande mídia brasileira.

No momento atual,
a mídia tenta quebrar a maior empresa estatal brasileira, a Petrobras. As práticas de corrupção e superfaturamento agora – vejam bem, somente agora, no governo Dilma – apuradas, denunciadas e com prisões de grandes empreiteiros, na verdade não são de agora. Sempre existiram. Aliás, são práticas comuns em todo o Brasil e em praticamente todas as obras públicas. Não sou louco ou irresponsável de afirmar que em 100% das obras licitadas ocorrem práticas de superfaturamento, caixa dois, corrupção, propina, etc. Não cometeria um erro desses. Mas, que é público e notório que na maioria das obras contratadas pelos governos das diversas esferas, dos diversos partidos, isto acontece já de longa data, ninguém pode negar.

Toda essa propaganda midiática sempre contra o governo Dilma e Lula não passa de mais uma covarde tentativa de desgastar o governo Dilma e de colocar nas costas de um partido político o peso de toda uma prática lesiva aos interesses públicos, que é realizada por praticamente todos os partidos, à exceção talvez do PSTU e do PSOL que não governam em nenhum estado, ainda. A corrupção no Brasil é um grande problema, sem dúvida. E é cultural, até. Ela existe não apenas por parte de agentes públicos, não. Ela  existe inclusive no nosso dia a dia, quando, de alguma forma, os cidadãos tentam levar vantagens para auferir ganhos ilícitos. Muita gente deixa de declarar corretamente o imposto de renda; outros apelam para o suborno do guarda da esquina; enfim, de muitas formas ocorrem práticas que não são as mais republicanas. A mídia brasileira, de maneira alguma tem autoridade moral para cobrar de qualquer governo uma postura decente. Ela compactou com a ditadura, ela compactua com práticas de corrupção e desvios da oposição golpista, ela blinda governos com os quais tem afinidade ideológica e de interesses de classe. Enfim, a mídia brasileira é golpista – haja vista o que ela apronta durante as campanhas eleitorais – e foi condescendente com práticas que hoje ela condena.

Vou dar um exemplo, no âmbito do caso Petrobras. A mídia pouco divulga que foi durante o governo FHC que se quebrou a regra comum ao serviço público da exigência de licitações para contratação de bens e serviços. Está certo que a quebra dessa regra em 1988 por FHC foi mantida por Lula e por Dilma, mas esta iniciativa, que está na raiz do atual escândalo na Petrobras, nasceu no governo FHC. O próprio ministério público reconhece que as denúncias feitas pelos delatores – que são bandidos confessos – vêm de longa data, anteriores aos anos dos governos do PT.

Não estou aqui defendendo nenhum partido em relação às práticas de superfaturamento e caixa dois. Quem errou, tem que pagar. Mas, é fato que estas práticas são antigas e estão ligadas ao sistema de financiamento de campanha eleitoral, que é caríssimo e requer dinheiro que os partidos não têm por fontes próprias e legais. Todos os candidatos mais fortes na corrida eleitoral receberam dinheiro das empreiteiras que agora estão denunciadas pelo escândalo na Petrobras. Foram doações legais, é o que consta. Embora seja dinheiro legal, contabilizado, fica claro que o sistema eleitoral brasileiro está sendo mantido com dinheiro superfaturado das obras públicas. E é isto que precisa mudar.

Aí eu pergunto a vocês
: quem não quer mudar isto? Os tucanos, por exemplo, não querem. O PT e os partidos de esquerda querem. Aliás, a maioria dos ministros do STF já votou pelo fim do financiamento de campanha pelas empresas. Contudo, o ministro Gilmar Mendes, indicado por FHC e um claro defensor dos tucanos na alta corte brasileira, pediu vistas da ação e está postergando seu voto, impedindo, com isso, que seja proclamado o resultado final. Isto, a mídia golpista não esclarece ao povo brasileiro.

A mídia faz uma verdadeira novela seletiva dos escândalos na Petrobras, com o claro objetivo de quebrar a Petrobras, de entregar o Pré-sal para os gringos e de colocar na conta do governo Dilma toda a responsabilidade para as denúncias seletivas que a mídia faz.

Isto constitui uma irresponsabilidade e um desserviço ao país e ao povo brasileiro. Primeiro, porque é justamente no governo Dilma que a Polícia Federal teve autonomia para investigar este e outros casos de corrupção e propina – que a mídia não noticia, como é o caso do Trensalão dos tucanos em SP. Segundo, porque a mídia faz uma denúncia seletiva, escondendo as ligações mais profundas das empreiteiras com práticas semelhantes em todo o país, nas diversas esferas de poder, e envolvendo políticos de vários partidos, inclusive do PSDB. Terceiro, a mídia não esclarece ao povo brasileiro que estes esquemas estão ligados ao sistema eleitoral vigente, baseado no financiamento privado de campanha eleitoral. A própria mídia ganha muito dinheiro com este esquema, pois indiretamente ela acaba obrigando os governos a fazerem enormes campanhas publicitárias para não perderem apoio popular.

Portanto, fica cada vez mais claro que nós, os de baixo, precisamos de uma outra mídia. Claro que hoje nós temos a Internet com os blogs “sujos” que fazem um importante contraponto aos golpismos da mídia e dos agentes públicos envolvidos nas conspirações contra o governo eleito legitimamente. Mas, a força da Internet ainda não alcança um percentual desejável para se contrapor ao cerco midiático imposto pela mídia golpista. Seria preciso que houvesse pelo menos um grande jornal nacional, uma ou mais revistas, uma ou mais rádios e TVs controlados por pessoas independentes, progressistas, de esquerda.

Esta é uma verdadeira frustração da minha parte, e acredito que da parte de centenas de cidadãos brasileiros. Os governos ditos de esquerda não tiveram a coragem de patrocinar a criação de uma mídia independente, uma mídia popular, que fortalecesse uma escola de jornalismo não vinculada a estes grupos que são verdadeiras máfias midiáticas.

Portanto, coloco aqui o desafio por parte dos governos do PT e também por parte dos movimentos sociais, dos sindicatos, das entidades estudantis, enfim, de todos os que lutam por um Brasil mais justo, menos desigual, menos dominado por gangsteres de colarinho branco. É preciso construir uma outra mídia para se contrapor à mídia golpista. Não é preciso abolir a mídia que existe aí, não. Que ela dispute as publicidades de mercado, já que ela é tão favorável à privatização de tudo. Aliás, todos nós deveríamos questionar o discurso dessa mídia que só fala em privatização e neoliberalismo: por que vocês não abrem mão das verbas publicitárias das estatais e dos governos federal, estaduais e municipais?

Até mesmo para fortalecer as lutas sociais, as demandas dos trabalhadores – como a dos educadores de Minas – seria importante que houvesse uma mídia independente. Quem não se lembra dos boicotes que nós sofremos durante as nossas greves, e de como a mídia se omitiu durante a destruição das carreiras dos educadores pelo governo tucano em Minas? Ou de como o piso salarial nacional foi burlado em Minas e no Brasil, com o silêncio cúmplice da mídia? Ou de como o direito de greve, pisoteado por alguns desembargadores, não foi questionado através da mídia?

Uma mídia popular e independente teria outra postura. Não estaria vinculada aos interesses de nenhum governo e defenderia os interesses dos de baixo. Poderia e deveria até apoiar um governo popular e de esquerda que fosse ameaçado pela direita. Como é o caso do governo Dilma, ameaçado o tempo todo pela mídia, pelo congresso, pelo TSE, enfim, pelos senhores de engenho dos tempos atuais.

A população brasileira precisa deste contraponto diário ao noticiário que é produzido pela mídia golpista. Do contrário, não demorará muito para que a direita forme o seu exército fascista e tome o poder, no voto, ou através dos tribunais, ou pela força. A direita cresceu muito em representação parlamentar. E a fonte deste crescimento é a mídia golpista com sua versão anti-povo, anti-Brasil, anti-governo Dilma, anti-movimentos sociais. Eles atacam diariamente os defensores dos direitos humanos, e tratam as questões sociais de forma rebaixada, como se pudéssemos resolver tudo implantando uma linha dura, leis duras, repressão e tortura. Nada mais falso.

No fundamental dos problemas brasileiros está a desigualdade, a ausência de políticas públicas de qualidade na Saúde, na Educação, na moradia, no transporte público. Como o estado brasileiro trata mal aos de baixo, claro que o resultado é o aumento da criminalidade, da violência provocada por um tipo de disputa de mercado chamado tráfico de drogas. Sem opção adequada de trabalho, escola, lazer, cultura, muitos acabam se dirigindo para o crime organizado. Mas, não sejamos hipócritas: os crimes cometidos pelos de cima são bem maiores, bem mais nocivos ao povo brasileiro do que os recortes de notícia sensacionalistas com os chamados bandidos das “periferias” do país. Somente em sonegação de impostos, por exemplo, que a mídia nem toca neste assunto, o país perde bilhões de reais anualmente, mais até do que o que se perde com a corrupção. Quantas escolas e postos de saúde e hospitais e moradias deixam de ser construídos anualmente por conta da sonegação feita pelos de cima, principalmente?

Então, pessoal
, é preciso construir uma outra mídia para construirmos também uma outra cultura no país. Uma cultura de respeito ao próximo, de solidariedade, de valorização das coisas boas que são feitas no cotidiano das pessoas; de incentivo às milhares de práticas de ajuda mútua; de formação de uma visão de Brasil mais humanista, menos repressora, mais voltada para a justiça social, menos neoliberal, mais voltada para a inclusão de todos, e menos voltada para pequenas elites privilegiadas; que respeite as diferentes correntes de pensamento, que valorize os muitos fazeres cotidianos, e não apenas o consumismo como um fim em si mesmo.

Nos próximos anos, vou cobrar isso de Pimentel, da Dilma e dos movimentos sociais e das pessoas com as quais convivo diariamente. É preciso construir uma mídia alternativa, popular, independente, de esquerda, para se contrapor ao cerco midiático da mídia golpista.

Um forte abraço a todos e força na luta! Até a nossa vitória!

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 Grande camarada Bambirra - Presente! -, com quem tive a honra de conviver nas lutas políticas no início dos anos 80.

 Acima (E), Bambirra Júnior, parecidíssimo com o pai, e a jornalista Maria Auxiliadora Bambirra, viúva do homenageado.

 O diretor Wladmir, acompanhando a entrevista na rádio da escola.


Do nosso amigo e professor da rede estadual Wladmir Coelho, que é diretor da E.E. Coração Eucarístico, recebo a importante notícia a seguir:

Espaço Cultural “SINVAL BAMBIRRA

A Escola Estadual “Coração Eucarístico” recebeu a visita da jornalista Maria Auxiliadora Bambirra e Sinval de Oliveira Bambirra Júnior.


Durante a visita a viúva do ex-deputado Sinval Bambirra concedeu entrevista à Rádio Escola Conexão e participou de uma roda de conversa com alunos do ensino médio, professores, a representante da ONG Internet sem Fronteiras e estudantes de comunicação do UNI-BH.


A comunidade da Escola Estadual “Coração Eucarístico” prestou ainda uma homenagem ao líder operário criando o  Espaço Cultural “Sinval Bambirra” .

https://www.facebook.com/pages/Escola-Estadual-Cora%C3%A7%C3%A3o-Eucar%C3%ADstico/236743823086563?ref=hl


Comentário do Blog: Parabéns ao Wladmir, aos professores, aos alunos e demais educadores do Coração Eucarístico, além dos familiares de Sinval Bambirra. No início dos anos 80, fui amigo e companheiro de lutas do Bambirra, um destacado combatente social. Líder sindical dos tecelões, foi deputado estadual pelo antigo PTB de Jango e Brizola, tendo sido cassado com o golpe de 1964. Foi exilado político, sofreu torturas, mas jamais abandonou as causas populares em defesa do nosso povo. Os profissionais da Escola Coração Eucarístico, ao prestar esta homenagem ao valoroso Bambirra, faz um importante resgate da nossa história recente. Das Minas que resistiu ao golpe - lembro aqui que o Wladmir já homenageou também o jornalista José Maria Rabêlo, fundador do jornal O Binômio, e outra importante liderança de esquerda que foi exilado, retornou ao Brasil com a abertura política e, juntamente com Brizola, Bambirra, João Luzia e Theotônio dos Santos, entre outros, continuou a luta por transformações sociais e políticas no país. 
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