domingo, 13 de abril de 2014

A entrevista do ex-presidente Lula aos blogueiros "sujos"

A entrevista do ex-presidente Lula aos blogueiros "sujos"


Tive a paciência de ouvir durante mais de três horas a entrevista que o ex-presidente Lula deu aos chamados blogueiros "sujos" - tratados assim pela grande mídia ou pelo tucanato ou pela elite paulistana. Gostaria, portanto, de registrar algumas percepções deste momento, que considero relevante, já que se trata de um ex-presidente com grande popularidade e que tem poder para influenciar nas decisões políticas do país.

Primeiramente, cabe registrar a importância simbólica de Lula ter escolhido justamente os blogueiros considerados progressistas, que travam contraponto diário à mídia tradicional, para realizar esta entrevista. Lula, que ficou os últimos três anos em silêncio, resolveu agora falar. Não farei um relato completo do que ele disse. Para isto, os interessados poderão ouvir na íntegra a entrevista que publicamos aqui no blog, ao final do post. Mas, quero explorar algumas contradições, além de citar os aspectos que considero positivos, também.

Em linhas gerais, considero que Lula fez uma espécie de confissão da covardia do PT nos últimos anos. Embora ele não tenha se incluído, é claro que, como liderança maior do partido, ele é também responsável por esta atitude pusilânime do PT. Em muitos momentos nos últimos anos, o PT se calou, se acovardou perante temas de grande relavência para o país e até mesmo para as lideranças do próprio PT.

O caso do chamado mensalão, por exemplo, que resultou num grande desgaste ao PT e na prisão de algumas de suas principais lideranças, como reconhece Lula, faltou ao PT travar o debate político sobre o tema. Ao invés disso, o partido apostou na judicialização do caso, como se pudesse resolver o problema pelo aspecto jurídico. Cometeu dois erros nesta avaliação: primeiro, porque o judiciário brasileiro, com raras exceções, é dominado pelas elites, e age pela pressão da mídia, da opinião publicada pela mídia, não tendo independência para decisões autônomas e isentas. Em segundo lugar, mesmo que o jurídico fosse favorável ao PT, o desgaste político não seria resolvido sem o debate político público que o PT não travou com medo de enfrentar a mídia.

A falta de coragem para enfrentar a ditadura de uma mídia servil aos de cima foi outra característica negativa do governo federal e do PT nestes últimos 12 anos. Ao dar entrevista para blogueiros, Lula, de certa forma, faz uma autocrítica inconfessa, pois nos três mandatos de governo federal, o PT conciliou descaradamente com o monopólio da mídia. Inclusive alimentou este monopólio com recursos publicitários federais. O caso mais descarado foi em relação a rede Globo: consta que nos últimos 10 anos a Globo teria recebido nada menos que R$ 6 bilhões em publicidade "técnica" por parte do governo federal. O governo federal tinha e tem todas as possibilidades de criar regras de valorização da mídia alternativa, em favor da pluralidade da imprensa, mas acabou preferindo apostar na manutenção do status quo existente.

Em função deste acovardamento do PT para com a mídia tradicional - toda ela golpista, neoliberal, de direita -, o Brasil dos de baixo deixou de experimentar uma outra prática cotidiana, de diálogo horizontal, de valorização das culturas regionais, do direito ao contraponto aos constantes ataques da mídia aos movimentos sociais e à nascente democracia brasileira. E se agora o próprio ex-presidente Lula começa a se mexer e a falar é porque muito tardiamente começa a perceber que era preciso fazer alguma coisa nesta área das comunicações. E que não fizeram.

Não fosse a Internet e a inciativa de vários jornalistas e não jornalistas com seus blogs e a atuação  de ativistas nas redes sociais, o Brasil já teria sofrido golpes que resultariam na derrubada dos governos do PT. O golpe não precisaria ser necessariamente militar. Os golpes que mídia vem tentando através do judiciário - no caso mensalão, por exemplo - seguramente teriam levado ao impeachment do Lula ou da Dilma se não fossem os contrapontos feitos nas redes sociais da Internet.

Mesmo assim, Lula não assumiu um compromisso formal com a luta pela democratização da mídia. O PT morre de medo da mídia e só consegue agir de forma simbólica. O governo federal dispõe de amplos instrumentos para fomentar uma mídia alternativa e para liderar uma discussão nacional em favor da democratização da mídia, revelando o significado histórico do atual monopólio da imprensa, especialmente das rádios e TVs.

Nas políticas sociais, Lula dá um veradeiro show, quando compara as conquistas dos governos do PT em relação aos governos anteriores. Mais emprego no lugar das políticas recessivas neoliberais do tucanato; mais oferta de vagas nas escolas de ensino superior; mais médicos, mais políticas sociais como o Bolsa Família, Luz para todos, Pronatec, etc. Claro que em relação às questões sociais tudo o que se fizer ainda será pouco, dado ao passivo da dívida social de 500 anos desde a ocupação europeia do território brasileiro e latinoamericano. Mas, comparativamente aos governos dos tucanos e demais, os governos do PT dão um banho. Querer retroceder à era FHC seria um verdadeiro atraso para a vida nacional, especialmente para os de baixo, que serão (seremos) as maiores vítimas das políticas de choque de gestão neoliberais de um suposto governo tucano. Contudo, reconhecer esta realidade, não significa assinar embaixo tudo o que o governo federal faz ou deixa de fazer. Pelo contrário. Como a própria presidenta Dilma reconhece, sem a pressão dos movimentos sociais não será possível fazer as reformas, incluindo a reforma política, necessárias.

Lula falou praticamente sobre todos os assuntos. Falou da Petrobras, embora não tenha aprofundado sobre o caso mais criticado pela mídia - a compra da refinaria Pasadena. Deveria dizer claramente que esta compra foi um ótimo negócio para a Petrobras. Preferiu dizer que era preciso apurar e tal, mas, pelo menos desta vez, Lula alertou ao PT para que ele não permita que transformem a CPI da Petrobras num novo mensalão. De fato, tudo o que a mídia tradicional pretende - e a oposição golpista mais ainda - é criar um novo mensalão contra o PT. Foi graças a esta invenção chamada mensalão - que não se provou em absoluto o pagamento mensal de deputados - que deixou o PT na defensiva, com medo da própria sombra.

Desta vez, pelo menos, a chamada "base aliada" do governo federal no congresso partiu para a ofensiva e respondeu na mesma moeda. Se querem fazer uma CPI da Petrobras para desgastar o governo, então façamos também uma CPI dos escândalos escondidos pela mídia, escândalos estes ligados aos tucanos e ao agora aliados dos tucanos, Eduardo Campos de Pernambuco. A mídia conseguiu abafar todos os grandes escândalos envolvendo o PSDB - e são vários, tanto os federais quanto os regionais. Até mesmo o mensalão tucano mineiro, com os mesmos personagens do mensalão do PT, teve um tratamento diferenciado por parte da mídia e do STF. Lula citou este caso na entrevista. Os tais dois pesos e duas medidas que nós já havíamos falado aqui no blog.

Nos aspectos estéticos, da apresentação e da exposição de ideias, claro que Lula dá um show. Ele fala uma linguagem popular, como poucos políticos conseguem, já que é uma liderança que veio de baixo, que surgiu com o movimento operário resistindo aos cortes salariais da ditadura civil-militar no final dos anos 70 e início dos anos 80. Lula é das poucas lideranças nacionais que conseguem estabelecer um diálogo direto com o povão, sem precisar da mediação de uma mídia, como acontece com outros personagens, como Aécio Neves, Marina Silva, Eduardo Campos, e até mesmo a presidenta Dilma. Todos estes personagens precisam da ajuda de merqueteiros para se promoverem, pois não têm o carisma e a experiência de um diálogo direto com o povão brasileiro. Lula, ao contrário, navega com enorme facilidade neste quesito. Um outro líder que também tinha esta facilidade era Leonel Brizola, embora tivesse sido brutalmente prejudicado pelos longos anos afastado das novas realidades brasileiras, após o golpe de 1964.

Contudo, apesar deste ponto forte da liderança do Lula, ele não se afasta da sua prática conciliadora, que desenvolveu enquanto liderança sindical no passado. Ele critica os de cima mas deixa uma porta aberta para o entendimento, a conciliação. Esta característica, que pode ter o lado bom em determinados momentos, em outros, contudo, é extremamente prejudicial, pois não ajuda a avançar a luta em favor dos de baixo. Por isso mesmo a gente observa que o Brasil avançou em muitas conquistas sociais, mas continua atrasado em pontos vitais como: na manutenção do monopólio da mídia; na manutenção dos privilégios das castas dos poderes constituídos - especialmente no legislativo, mas não somente; na manutenção da prioridade ao setor financeiro nas políticas públicas; na manutenção da anistia aos torturadores da ditadura civil-militar; enfim, são muitos os temas que precisam ser revistos e alterados, para o bem da maioria do povo brasileiro.

No aspecto internacional, das relações com outros países e povos, não resta dúvida que o governo federal desenvolveu uma política não atrelada ao imperialismo norte-americano. Lula, na entrevista, destacou os bons contatos e a solidariedade com os países africanos, com a Venezuela, a Bolívia, etc. Demonstrou que a diversidade das relações, neste caso, além de benéfica às culturas regionais, é boa também economicamente. O Brasil ganhou ao não ficar atrelado apenas às diretrizes impostas pelos EUA e países ricos da Europa.

Enfim, após três anos de autoexílio, Lula ressurge com fôlego e disposição para travar muitas lutas políticas, a principal delas, neste ano eleitoral, a da reeleição da presidenta Dilma. Tomara que o PT e o governo federal comecem a aprender que a omissão nestes útlimos anos custou muito caro à democracia brasileira. Não que tudo dependa somente do PT e do governo federal. Nunca, jamais! Mas, num cenário de desorganização das amplas massas, de uma certa despolitização, a liderança de um partido e de um governo que se propõem progressistas pode evitar retrocessos. E o golpismo, no Brasil ou em qualquer parte do mundo, anda à espreita e sempre pronto para assumir (e destruir) os destinos dos povos.

Um forte abraço a todos e força na luta! Até a nossa vitória!





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