quinta-feira, 8 de julho de 2010

Uma caneca de canjica, um crime com requintes de crueldade e o chifre do dinossauro


O tanque de guerra está na oficina. Problemas no freio. Na verdade, tem pelo menos meia dúzia de problemas para consertar: freio, embreagem, caixa de marchas, marcador de combustível que não funciona, entre outros defeitos de menor monta. Eu disse para o mecânico, que é meu amigo e conhecido de muitos anos: "O mais urgente é o freio. As demais coisas podem esperar. Meu pequeno aumento só sai ano que vem. E olhe lá. Até lá, o carro tem estrutura para aguentar o que der e vier (já enfrentei até enchente com este carro). De qualquer forma prepare um orçamento geral, pois se os 70% do que seria um 14º sair em outubro, de repente dá pra arrumar tudo". Deixei o mecânico todo entusiasmado com a possibilidade de uma futura reforma geral no tanque de guerra.

Sigo a pé com o bolso cheio de esperança carregando o que sobrou da mixaria que recebi ontem. Passo no supermercado, uma pequena compra - açúcar, pão de forma, café instantâneo, um cacho de banana maçã, um suco de manga que dizem ser natural, uma barra de chocolate, um prato de mortadela, pãesinhos quentinhos, um pote de margarina e o jantar tá garantido por uns bons dias, seguramente.

Aproveito a fartura do primeiro dia pós-salário e pago as contas de água, luz e telefone. Uma reserva técnica para o conserto do tanque de guerra, que eu nem sei quanto será; uma outra reserva para o transporte e pronto. Não me falem mais em gastos e contas a pagar até o quinto dia útil do mês que vem.

Já no bunker, quando ligo o rádio e a TV, a minha cidade é notícia internacional. Infelizmente de uma forma indesejável. O crime com requintes de crueldade aconteceu - ou supostamente teria acontecido - justamente no bairro onde lecionei há uns quatro anos. Um bairro tranquilo, ótimo para se morar. Claro que a questão ali não é o local do crime, mas o crime, com a brutalidade e covardia, que foge à compreensão do entendimento humano - ou uma desumanidade sem descrição. Estranho como Minas tem sido palco de crimes hediondos nos últimos meses. Podem até se configurar como casos isolados, praticados por psicopatas ou outros tipos de doentes mentais. Mas, um estudo sociológico talvez encontre ligações perigosas entre essas práticas abomináveis e o tipo de sociedade que se reproduz aqui em Minas e no Brasil e no mundo.

A boa Educação ainda continua sendo um caminho privilegiado para uma forma de vida mais saudável, não baseada apenas no consumismo vazio, ou na cega concorrência de mercado e nessa estética de ícones e estrelas que alimenta o imaginário de parcela da comunidade desprovida de conteúdo melhor ou mais abrangente.

O tanque de guerra no conserto, o jeito é pegar o buzu. No interior do dragão de lata que cospe fumaça pra todo lado, alguns estudantes que saíram das escolas no turno da tarde vão comentando o que virou notícia nacional e internacional. Conversas desencontradas que o barulho do dragão que rosna não permite ouvir. Uma parte da geração atual está embriagada por estes maus exemplos de fama, poder, droga, armas, estética do corpo supostamente perfeito, etc. Uma aventura sem causa, sem ideologia, sem compromisso com o social. Apenas mais uma forma de disputa marginal do mercado. Aquilo - e aqueles - que não se destacam nas disputas formais e reconhecidas como legais do mercado, vai / vão para outra via de atalho ao suposto reino do céu do mercado total. Futebol, tráfico de drogas e até a política institucional, numa rede que une figuras de terno e gravata, com pose de boa gente, a criminosos comuns, sem terno nem gravata.

Na escola, essa realidade repercute entre os alunos e colegas, embora não seja o único e nem talvez a principal preocupação. Pelo contrário. Tive a boa notícia de que na escola ao lado da minha haveria festa junina, com canjica, caldo de feijão, casamento na roça e tudo mais. Logo me apresentei, junto com uma colega professora, como voluntário para representar a nossa escola naquele evento de tamanha importância. Procuramos o diretor da nossa escola e oferecemos a nossa despojada e generosa oferta. E ele disse, sorrindo: "claro, que ótima idéia, tudo bem, na hora do recreio vocês vão". E não deu outra. Lá fomos nós provar da canjica e do caldo de feijão, deliciosos, feitos com carinho e devorados com mais carinho ainda por nós. Tive até que cancelar a pequena janta que faria hoje a noite, com aquela enorme compra feita na parte da manhã.

Após o trampo, de volta para o bunker, leio a mensagem da colega Cristina, uma das guerreiras da nossa greve, que justificou seu breve "sumiço" da vida virtual, em função da pesada carga de trabalho imposta na vida real. Dois cargos de professor é dose para elefante. Daí que a redução da jornada e a ampliação do tempo extraclasse precisam realmente se tornar uma bandeira de luta permanente, junto com os salários mais justos e melhores condições de trabalho.

Ah, um pouco antes, ainda durante a noite, recebo um telefonema de uma colega educadora aqui de Vespasiano, que é do PSTU. Ela disse que a Vanessa Portugal, que é candidata ao governo de Minas, visitou o nosso blog e gostou muito. E até pediu para a colega me convidar para o encontro (ou seria conferência ou congresso?) do partido, que ocorrerá nos dias 17 e 18 de julho em BH. Agradeci o convite. Se der eu vou. Não garanto. Mas, é importante que todos os candidatos ao governo de Minas apresentem as suas propostas para a Educação e assumam compromissos públicos conosco.

E o nosso blog, que recebe a ilustre visita da companheira Beatriz, coordenadora do Sind-UTE, da Marilda, da Lecioni (ela disse pra mim que visita o nosso blog quase todo dia), e agora também da combativa Vanessa Portugal, que também é educadora; do Fábio do PCB, que é educador e também candidato ao governo de Minas; e muito provavelmente é lido também pelo faraó e seu afilhado-professor, e pelo outro canditato do PMDB-PT; enfim, com essa responsabilidade, vai - o nosso blog - cobrar dos candidatos os compromissos defendidos pelos educadores de Minas. Tudo escrito, palavrado, registrado em cartório e com atestado de bons antecedentes. É isso.

Mas... logo em Vespasiano... que coisa, heim gente?! Uma vez me disseram que enterraram um chifre de dinossauro por aqui. E eu que não acreditava, agora desconfio...

5 comentários:

  1. Bom dia Euler. Visito seu blog praticamente todos os dias. Adoro tudo que você escreve e assino embaixo.

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  2. Ola, Euler!!!
    Que bom que estamos atingindo públicos "tao nobres"!!!
    Acho q se vc nao quiser se candidatar pra algum cargo politico, vc pode escrever um livro...
    Conte comigo para as duas opções!!!
    Abracao,
    Simone França

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  3. Sabe que essa ideia de ter alguém como vc nos representando nas próximas eleições seria algo mesmo interessante????????????????
    Pense nisso!Prometo fazer campanha cá pelas bandas da zona da mata mineira...

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  4. Será que encontraremos candidatos ,com a ficha limpa ao legislativo e ao executivo em Minas?
    As últimas eleiçoes foi um vexame. Que baixaria! Quantas cidades tiveram novas eleiçoes!!!
    o perfil politico e da politica em MG nao está nos satisfazendo. Quanta ao salário ,nao abuse. Ele é curto mesmo. Nada de gastos extras e mesmos essenciais.Viva da fé,esperança,expectativa,crença no amanhã que em 2011-2012 o mundo será outro.ACREDITE E VIVA!

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  5. João Paulo Ferreira de Assis10 de julho de 2010 19:16

    Atenção pessoal, principalmente de Sete Lagoas e municípios da respectiva área de influência. Pensem muito antes de votar em Leonardo Barros. Se o cara fosse nosso amigo ele não teria colocado em lugar de destaque a mentirosa nota oficial da juventude do PSDB nos acusando de agredir José Serra. Não podemos ter mais inimigos dentro da Assembleia.

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