domingo, 11 de abril de 2010

O desabafo de mais uma colega professora

O texto a seguir é mais uma carta que recebi por e-mail, de uma professora que mostra a realidade dos profissionais da Educação em Minas. A despeito das mentiras pronunciadas pelo governo mineiro através de uma mídia comprada, a realidade está exposta para quem quiser ver. A Educação pública e o profissional da Educação não são prioridades no Governo Aécio-Anastasia. Fiquem então com a carta da professora Alessandra, e, ao final, leiam também os nossos comentários:

Desabafo

Os salários mineiros estão em 8º lugar dos piores no ranking nacional.

Sou graduada em Matemática pós graduada em processo-ensino aprendizagem da Matemática Psicopedagoga e Mestre em educação.

Investimento aproximado: R$ 90.000,00.

Meu salário ? Vencimento básico R$ 610,59 no 1º cargo, que tenho 17 anos de serviço e R$ 546,90 no 2º cargo, que tenho 6 anos. Fiz concurso público para ingressar na carreira de educadora, tendo sido aprovada nos dois cargos, aliás nos três . Há algum tempo atrás fui também concursada como Auxiliar de secretária , cujo cargo exonerei por receber apenas um salário mínimo.

Atualmente com dois cargos no estado e com a formação que tenho , meu salário líquido não chega a 4 ( quatro ) salários mínimos . Devo contribuir para a formação de políticos, médicos, advogados, professores...Epa ! Professores? Não! Pois meus alunos, ao tomarem conhecimento de meu salário chegam à conclusão de que aqui em minha cidade trabalhar na coleta de lixo “dá mais dinheiro". Além do salário e da insalubridade, que também deveríamos receber pelos palavrões, empurrões e apelidos que recebemos: folgada, preguiçosa, vagabunda..., os coletores de lixo recebem horas extras. Nós precisamos cumprir um horário obrigatório de Módulo II na escola. Dizem que é remunerado! E trabalhar em casa 20 horas semanais se quisermos oferecer aos nossos alunos aula de qualidade.

Qualidade ? De quê e para quem? Pago xérox com dinheiro próprio, para que as provas e atividades fiquem mais apresentáveis aos alunos, pago chocolate na Páscoa e lanches especiais na Semana do Estudante...Isto tudo em nome de uma suposta qualidade e de um ensino pelo exemplo . Exemplo esse que nem sempre é dado por todos.

No dia 1º de abril, parece mentira mas não é, as escolas estaduais que oferecem ensino Fundamental do 1º ao 9º ano foram obrigadas a reintegrar alunos que haviam sido retidos no 5º ano de escolaridade . Eles foram reintegrados no 6º ano de escolaridade após terem sido retidos e após 2 meses de dias letivos, deram um salto, não venceram ainda as dificuldades do ano anterior (5º ano), perderam 2 meses de conteúdos do 6º ano , e acreditem: a culpa é da escola!

Com toda a formação que tenho , assim como muitos de meus colegas de trabalho, “infelizmente", não fiz o curso de Magistério. Nem o técnico, nem o Superior. No caso da escola em que trabalho , 15 alunos foram “ promovidos “ ao 6º ano , muito deles silábicos – alfabéticos estão lá de igual para igual , com os aprovados de fato no final de 2009 . Preciso alfabetizá-los para depois tentar “alguma coisa com a matemática”.

Aliás para muitos deles somar 8 mais 7 é tarefa difícil uma vez que , possuem apenas 10 dedos nas mãos !!! Imaginem...

Parece exagero , parece apenas murmuração , mas é desabafo!

De uma professora que por muito tempo acreditou de fato na libertação da sociedade através da educação , que investiu tempo , dinheiro , que abriu mão do convívio familiar e que hoje após 17 anos de carreira dedicados à educação e 9 de formação superior sente deprimida, desanimada e principalmente sente que não há mais tempo de voltar atrás!

Se você conseguiu chegar até aqui e ficou também triste com meu desabafo , certamente por muito tempo você deve ter acreditado na educação..

Alessandra - Professora da Escola Nila Faraj de Vespasiano. (08/04/2010)
. . .

Comentários do professor Euler: Pois é, Alessandra, entendo perfeitamente o seu desabafo, pois todos nós que escolhemos esta carreira temos razões de sobra para estarmos decepcionados com os governantes de Minas e do Brasil. E além dos problemas estruturais com os quais nos debatemos, como o minguado salário e as condições de trabalho, enfrentamos também a perseguição de certos colegas e dirigentes das escolas, que usam mecanismos como o da avaliação de desempenho para tentar coibir e enquadrar os profissionais um pouco mais rebeldes - mas não menos profissionais e capacitados nas atividades que lhes competem.

Voltarei a este tema - o da avaliação do desempenho implantado por este governo como instrumento de punição e não de aprimoramento dos profissionais - com carga pesada, assim que a greve deixar de ser a prioridade do momento. Quem me conhece sabe que eu não deixo barato. Vou citar nominalmente quem anda prejudicando as pessoas por interesses escusos e se necessário vou acionar o serviço da Advocacia do Sindicato para as providências jurídicas cabíveis em relação a danos materiais, morais e profissionais.

A Educação pública em Minas é uma das poucas carreiras nas quais os trabalhadores, além de carregar o peso dos problemas citados (salários baixos, alunos que não respeitam o professor, sobrecarga de atividades, pressão de pais, supervisão e direção, etc.), ainda convivem com estes mecanismos inaceitáveis e covardes de intimidação.

2 comentários:

  1. Maria Cristina Costa12 de abril de 2010 17:35

    O Texto acima escrito por nossa colega de profissão,Alessandra,retrata infelizmente, tudo que penso e sinto em relação à educação e o que estamos vivendo nas Escolas Estaduais de Minas Gerais.

    Pitágoras já nos dizia: "Educai as crianças, para que não seja necessário punir os adultos".

    E eu me pergunto educai como?????

    Acho que nossos políticos deveriam seguir o que o que nosso grande filósofo, pensador e matemático Pitágoras já nos dizia. Porém, só estão preocupados em como punir os “adultos" (crianças, jovens adolescentes), pois na área da EDUCAÇÃO não há nenhum nvestimento naquele que tenta abrir novos horizontes, mostrar novas oportunidades, dar a chave do conhecimento para nossos jovens.


    Espero que toda a sociedade saiba a verdadeira realidade que nós professores compromissados, comprometidos e que ainda acreditamos na educação como instrumento de formação integral do ser humano estamos sofrendo.

    Termino citando a frase do Filósofo brasileiro Huberto Rohden:

    “Não existe crise de educação no Brasil nem em qualquer parte do mundo. O que existe é uma deplorável ausência da verdadeira educação.”

    Maria Cristina Costa
    Professora de Matemática da E.E."Padre José Senabre" de Vespasiano.

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  2. Belo texto, Maria Cristina. Profissionais como você, Alessandra, Maria Arlinda e milhares de outros trabalhadores da Educação são a esperança de que, apesar de todo o descaso dos governos, ainda haveremos de conquistar e construir uma Educação de qualidade, com educadores valorizados, como deveriam ser.

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