domingo, 29 de agosto de 2010

Uma descarga a céu aberto: professor é o problema


O Blog do Euler aconselha: não VEJA nem leia todo tipo de lixo que espalham por aí

Recebi por e-mail uma indicação de leitura do colega educador Reginaldo J. da Silva, que com toda razão estava zangado com o teor de uma entrevista publicada numa revista de circulação nacional. Não vou citar o nome da tal revista, pois pode feder o ambiente da blogosfera. Só de falar isso, todos sabem de qual publicação se trata.

Na tal entrevista, uma "especialista em educação" (mais uma), diz que quem precisa de escola em tempo integral é o professor e não o aluno. Para esta infeliz, professor(a) deveria ganhar de acordo com o que produz. Salário alto para todos, nem pensar - diz a "especialista". Para esta sumidade em matéria de educação, os alunos não aprendem porque os professores têm uma formação débil. E lógico, para ela, a culpa é do governo federal, que permite a existência de universidades e faculdades que não preparam bem os professores.

Com isso esta especialista livra a cara do faraó e do afilhado e também a do candidato demotucano que governou São Paulo, cujas práticas aliás são mencionadas como o melhor exemplo de incentivo aos professores. Nós vimos quais foram essas práticas durante a greve de lá: spray de pimenta e cassetete. E aqui: ameaças de demissão, corte de ponto e mentiras pela mídia.

Na entrevista, a tal especialista elogia a meritocracia e insiste na tese de que o problema da Educação pública é a formação dos docentes. Tenta disfarçar dizendo que os professores não são os únicos culpados - para ela, a culpa é do governo federal -, mas acaba nos condenando: para ganhar bem, precisamos mostrar resultados. Pagar bons salários para todos, não.

Esse tipo de proposta indecente, do tipo: mostra serviço primeiro que depois será recompensado - só acontece quando falam da carreira da educação pública. Além disso, estes especialistas demonstram não ter a menor consciência da realidade do ensino público hoje no Brasil. Da realidade social trincada, com famílias desestruturadas, estudantes que não recebem o menor suporte pedagógico e afetivo em casa, o que obriga o professor a virar psicólogo, assistente social, mãe, pai, tomador de conta de menino, etc. E de vez em quando o/a professor/professora consegue realmente exercer a sua atividade profissional.

Ao contrário do que diz mais esta especialista (não é a única, nem será a última, diga-se) os nossos professores têm sim ótima formação acadêmica. Falta-nos estímulo para trabalhar, em função dos salários indecentes que recebemos, o que obriga boa parte dos professores a assumir dois ou três cargos. Faltam-nos ainda condições adequadas de trabalho, equipamentos, bibliotecas, laboratórios e tempo extraclasse para a prática adequada de trabalho interdisciplinar. E falta também investimento decente na formação continuada do professor, que se não pagar por conta própria seus cursos de aprimoramento não têm acesso a nada. Mas, é mais cômodo para o estado, através do receituário neoliberal que formou estas especialistas, apostar na divisão da categoria, inventando prêmio para alguns e taxando os demais como incapazes.

Como disse o colega Reginaldo, criticar e atacar o/a professor/professora é o caminho mais fácil para se justificar e empanar perante a sociedade a omissão do estado. Que não é só do governo federal não, mas também e em alguns casos principalmente de governos estaduais, como o do faraó e afilhado, e dos municipais.

Mas, a tal especialista - como tantas outras -, ao apresentar este tipo de crítica, de uma certa forma se credencia para assumir algum cargo nos governos neoliberais. Cargos pelos quais jamais receberão salários de miséria de professores, como os de Minas e do Brasil. Receberão bons salários mesmo não mostrando eficiência alguma no desempenho das tarefas. Ou quem sabe até serão convidadas para fazer palestras recebendo altos honorários para ensinar aos professores que são eles (nós) os culpados pelo fracasso do ensino público no Brasil.

Recomendo aos leitores do blog não comprar, não distribuir, nem indicar a tal revista, que todos já sabem qual é, pois não é a primeira vez que ela divulga matérias ridículas incriminando os professores. Na verdade não é bem uma revista, mas uma descarga a céu aberto. E quanto a esta infeliz especialista, vou xingá-la em outro idioma, mais adequado a uma mente colonizada: fuck you!

* * *
Incorporo ao texto central o comentário sempre lúcido do nosso colega e amigo João Paulo, que tem muito a ver com o texto acima. Só não concordo com ele quando, por excesso de modéstia, coloca-se como menos preparado do que outros professores. Primeiramente, já é um equívoco e uma sacanagem do governo do faraó e afilhado confiscar o direito de férias-prêmio a que todos deveriam fazer jus. Segundo, porque nós sabemos como essas avaliações de desempenho são feitas, quase sempre de modo subjetivo, pessoal. E como se não bastasse tudo isso, agora o governo pune quem tira as férias-prêmio ou a licença-maternidade.


"João Paulo Ferreira de Assis:

Prezado amigo Professor Euler

Veja como o governo de Minas age. No caso das férias-prêmio um dos pontos de desempate é a avaliação de desempenho. Solicitei férias-prêmio e não fui selecionado. Os professores que foram, tem melhor avaliação de desempenho. Agora eles virão com o rombo no seu pagamento, e eu que não fui selecionado não terei problema algum.

Veja, Professor Euler, o [des]governo Anastasia conseguiu a proeza de desvirtuar o instituto das férias-prêmio e a licença-maternidade, CASTIGANDO A EFICIÊNCIA e PREMIANDO A MEDIOCRIDADE. E castiga ainda aquelas professoras que precisam de um momento para ficarem com seus bebês, os amamentarem condignamente.


Veja você prezado amigo. Se eu tivesse sido melhor professor, eu estaria sendo castigado agora. Viveria minhas férias-prêmio preocupado de quanto será o rombo no meu pagamento. Esta atitude mostra o compromisso do Anastasia com a Educação. Quer sucatear as escolas públicas para que os filhos da gente pobre não tenham as mesmas oportunidades que os da gente rica."

11 comentários:

  1. Euler:
    Sou uma leitora assídua do seu blog. Quero parabenizá-lo pela maneira lúcida e coerente com que faz seus comentários e pela rapidez com que nos traz informações sempre "quentinhas".

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  2. Oi Euler, estou "sumida", mas "ligada!" meu blog tem se alimentado de notícias escritas por vc, pois trabalho em dois turnos, tenho dois filhos, trabalho de escola em casa, enfim: há épocas que fico sem tempo mesmo! também não tenho sentido inspiração. ao ler sua noticia de hoje fiquei com menos inspiração ainda...
    Há dias que eu me sinto tão sem lugar nessa vida, observo os alunos, a escola, o governo do estado e do país; as atrocidades de todo o mundo...Olho pra mim mesma e penso que todos estamos meio perdidos, mas acaba que uma força ética, de fé, de ser humano irrompe-se no meio de tudo e a gente acerta o pensamento, a razão e as emoções e "manda ver" tudo de novo!
    E Deus tem que olhar para as pessoas que teorizam a vida e a educação. Elas não sabem o que dizem...
    Abração carinhoso

    Vanda

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  3. Como é triste ver várias pessoas com diplomas de especialista em educação eque não têm capacidade de avaliar o problema do ensino brasileiro de forma mais ampla. A escola, seus processos e resultados são frutos da sociedade. Não há como separar a escola do seu contexto. Esses especialistas têm que entender que não se muda resultados da escola sem melhorar a qualidade de vida da população que a frequenta.

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  4. Andei pesquisando o curriculo desta especialista.

    Bem interessante! Depois desta pesquisa e contextualizando o período em que a mesma atuou como professora universitária, percebe-se que foi num período de extremo autoritarismo e não havia espaço para criatividade; tecnologia(nem havia (o maximo era a máquina de escrever, mimeógrafo à álcool).

    Ressumindo, essa especialista está passando por uma crise de consciência. Afinal ela foi responsável pela formação acadêmica de muitos professores.

    E para acrescentar a bendita visa D + D, foi fundadora do PSDB, só isso basta.

    É apenas mais uma falando asneira.

    Euler, abraços e saudade dos tempos de luta.

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  5. Euler,
    Saúde e Paz!
    Que maravilha o seu blog!!! Parabéns pela clareza e objetividade com que vc tem nos passado informações tão precisas! Tão úteis, nos momentos mais incertos em que estamos vivendo. Li o comentáio do amigo João Paulo Ferreira e fiquei um tanto surpresa. Acho que ando um tanto desinformada. Estou de férias prêmio. Pela primeira vez consegui esta proeza. Vc sabe não é fácil... Entendi mal ou terei descontos no meu salário??? Por favor se possível me esclareça. Um abraço e contamos com vc, com a união dos colegas para darmos a resposta ao faraó e ao seu afilhado nas urnas.
    celeida
    celeidam@yahoo.com.br

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  6. João Paulo Ferreira de Assis31 de agosto de 2010 00:41

    Prezado amigo Professor Euler:

    Dois assuntos: Minha avaliação não é má, na verdade eu perco para esses colegas por alguns décimos, que são o bastante para nos indicar o paraíso e o inferno.

    Outro assunto: essa tal ''especialista'' é semelhante a uma representante dos pais de alunos, de Taboão da Serra SP, a senhora Cremilda Estela Teixeira, que a APEOESP sabe muito bem quem é. Dona Cremilda, por exemplo, no seu blog Cremilda dentro da Escola, diz que a melhoria salarial dos professores não garante a qualidade de ensino, e o pouco que o Estado de São Paulo fez nesse sentido, foi criticado. Ela tem uma amiga, em Leopoldina MG, a Glória Reis, autora de um livro ''Escola, Instituição de Tortura''. Essa senhora também é blogueira, e uma vez ela me ameaçou a mim, e a um professor de São Paulo, o Victor, de apagar nossos comentários que eram ''imbecilidades''. Aquilo me ferveu o sangue. E eu que deveria ter respondido educadamente, como professor que sou, respondi: ''pode apagar, ninguém lê essa porcaria''. Quando vi, já tinha enviado o comentário, que não foi publicado.

    Atenciosamente, João Paulo Ferreira de Assis

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  7. João Paulo Ferreira de Assis31 de agosto de 2010 00:44

    Prezada Celeida

    Pelo que ouvi ontem à tarde na Escola, a injustiça não será mais praticada contra os professores em férias-prêmio e nem contra as professoras em licença-maternidade. Seria bom procurar a palavra do sindicato.

    Atenciosamente João Paulo Ferreira de Assis

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  8. Caros amigos

    Acabei de ler a "entrevista" e sugiro a todos que conheçam um pouco mais sobre a autora, pois é importante entender a relação criatura(entrevista) e criador (autora). Lendo a sua biografia disponível em http://guiomarmello.wordpress.com/about/, entendemos a posição defendida pela autora que já trabalhou em Washington, como Especialista Senior de Educação no Banco Mundial e no Banco Interamericano de Desenvolvimento,nas duas instituições gerenciou ou assessorou a preparação de projetos de investimento do setor público em educação na Argentina, Paraguai, Equador, Uruguai e Bolívia.
    De volta ao Brasil, em 1997 para assumiu a Direção Executiva da Fundação Victor Civita, organização sem fins lucrativos mantida pelo Grupo Abril que se dedica a publicações especializadas para professores de educação básica,tendo sob sua responsabilidade a edição da revista NOVA ESCOLA, o OFÍCIO DE PROFESSOR, etc.

    As tijoladas e os ataques dessa revista tem apenas um objetivo, privatizar a educação para lucrar, lembrem-se do velho ditado: "quem desdenha quer comprar"!

    Abraços

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  9. Caro João Paulo

    A Cremilda é uma câmara de eco da PIG, ele tem ódio patológico pelos docentes, e na verdade a sua defesa da educação é surreal, não se pode levar o que ela escreve a sério, é uma forte candidata ao trofeu "Inimiga da Educação Pública" na categoria Serial Killer dos Docentes, acho que nem a equipe do Criminal Mind's, consegue descobrir porque ela nos odeia.

    Abraços

    Graça Aguiar

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  10. João Paulo Ferreira de Assis31 de agosto de 2010 01:24

    É por isso mesmo que eu não leio NOVA ESCOLA, nem nada que venha da Abril.

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